lacoseguro.com

14. Conflitos entre Pais e Adolescentes: Não é um Problema, é um Mecanismo de Mudança

Queridos pais e cuidadores,

Se a sua casa se parece, por vezes, com um campo de batalha por causa da hora de chegada, da arrumação do quarto ou do tempo de ecrã, respire fundo. Saiba que não está sozinho. O aumento dos conflitos durante a adolescência é uma das realidades mais universais e desgastantes da parentalidade. Mas e se lhe dissermos que estes conflitos, quando geridos de forma adequada, não são um sinal de que algo está mal, mas sim um sinal de que o seu filho está a crescer – e a vossa relação também?

A investigação moderna, como a notável trabalho da psicóloga Susan Branje, veio revolucionar a nossa compreensão. Estes momentos de tensão não são apenas ruído de fundo; são, na verdade, um mecanismo necessário e positivo para a reorganização da relação familiar.

Do Comando para a Conversa: A Transição de uma Relação Vertical para uma Horizontal

Imagine a relação com o seu filho como uma escada. Durante a infância, os pais estão claramente num degrau superior. É uma relação vertical: vocês estabelecem as regras, protegem, guiam e o miúdo olha para cima, vendo-vos como as suas figuras de autoridade máxima.

A adolescência é o momento em que o seu filho começa a subir a escada. Já não está em baixo, mas também não está ao vosso lado. Ele procura desesperadamente mais autonomia e igualdade. Já não quer um “chefe”, quer um interlocutor. Este é o processo de transição para uma relação mais horizontal, marcada pela reciprocidade e interdependência.

É precisamente aqui que os conflitos surgem. Porquê? Porque este ajuste é incómodo para ambos os lados:

  • Para os pais: É difícil passar de “quem manda” para “quem orienta e negocia”. Abrir mão de um controlo rígido pode parecer que se está a perder o controlo total.
  • Para os adolescentes: A sua ânsia por autonomia entra em choque com as regras e expectativas familiares. Eles estão a testar os limites, não por rebeldia, mas para perceber até onde a sua nova voz e identidade podem chegar.

O conflito, portanto, funciona como o espaço de negociação onde esta nova dinâmica é lentamente construída.

A Chave para um Conflito Saudável: A Variabilidade Emocional

Um dos contributos mais fascinantes de Susan Branje é a ideia de que o que define uma família resiliente não é a ausência de conflitos, mas a qualidade desses conflitos. E o ingrediente secreto chama-se variabilidade emocional.

O que é isto? É a capacidade de, no calor de uma discussão, a família conseguir expressar uma gama completa de emoções – tanto as negativas (como a zanga, a frustração ou a deceção) como as positivas (como o afeto, o humor, a compreensão e o interesse).

Vejamos a diferença:

  • Famílias com Variabilidade Emocional: Discutem a hora de chegada. O pai pode estar zangado, a filha frustrada. Mas, no meio da discussão, o pai pode dizer: “Percebo que queiras estar com os teus amigos, isso é importante para ti” (empatia). Ou a filha pode, no final, a brincar: “Está bem, velhote, não volto tão tarde outra vez” (humor). Esta flexibilidade permite que a discussão seja um diálogo vivo, onde ambos os lados se sentem ouvidos e, acima de tudo, amados, mesmo na discordância.
  • Famílias Rígidas: As interações são sempre iguais. Ou são permanentemente negativas (gritos, críticas, portas a bater), criando um ambiente tóxico; ou são artificialmente positivas, onde o conflito é varrido para debaixo do tapete para “não chatear”, impedindo a negociação genuína e a resolução de problemas.

A variabilidade emocional é o que transforma um conflito destrutivo numa oportunidade de reconexão.

Como Transformar o Conflito numa Oportunidade: Um Guia Prático

Encarar o conflito como um mecanismo de mudança é bonito na teoria, mas como se põe em prática? Eis algumas sugestões:

  1. Mude a Sua Perspetiva: Em vez de pensar “Ele está a desafiar-me, a mim!”, tente pensar “Ele está a desafiar uma regra porque está a aprender a ser autónomo”. Esta pequena mudança tira o ataque a nível pessoal e permite-lhe reagir de forma mais calma.
  2. Valide a Emoção, Mesmo que Discorde do Comportamento: Diga: “Percebo que estejas zangado por não poderes sair. A regra mantém-se, mas a tua frustração é legítima.” Isto ensina ao adolescente que as suas emoções são aceites, o que é fundamental para a sua autorregulação emocional.
  3. Seja o Modelo de Variabilidade Emocional: Se estiver zangado, expresse isso de forma assertiva (“Fiquei desiludido com o que aconteceu”), mas não se feche. Esteja aberto a ouvir o outro lado e, se a situação se resolver, mostre afeto. Um abraço após uma discussão é um poderoso sinal de que a relação é maior do que o desacordo.
  4. Negocie e Ceda Quando For Adequado: A autonomia conquista-se a pouco e pouco. Em vez de um “não” categórico, tente: “Não podes chegar às 2h, mas podemos pensar numa hora mais tardia do que a atual, se me garantires que cumpres.” Isto constrói confiança mútua.
Conclusão: Do Caos Surge uma Nova Ordem

Os conflitos na adolescência são as “dores de crescimento” da vossa relação. Eles permitem reduzir gradualmente o controlo parental, aumentar a confiança e estabelecer uma ligação mais madura e igualitária que servirá de base para uma relação duradoura na idade adulta.

A próxima vez que um conflito surgir, lembre-se: não é o fim do mundo, é o início de uma nova forma de se relacionarem. A chave não está em evitar a tempestade, mas em aprender a navegar nela, juntos, com flexibilidade, respeito e a coragem de integrar todas as emoções – as boas e as más. Desta forma, em vez de se afastarem, estarão a construir uma relação mais forte, autêntica e verdadeiramente recíproca.