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02 – Coparentalidade e conjugalidade são a mesma coisa?

Quando a relação de casal e a relação parental se confundem.

A chegada de um filho transforma a organização da família. Duas pessoas que, até então, se relacionavam sobretudo enquanto casal passam também a assumir responsabilidades parentais.

A partir desse momento, passam a coexistir duas relações diferentes: a relação conjugal e a relação coparental.

Na vida quotidiana, estas duas dimensões cruzam-se frequentemente. Uma discussão iniciada na relação de casal pode interferir numa decisão sobre a criança. Da mesma forma, as divergências relacionadas com a educação podem aumentar a tensão entre o casal.

É, por isso, compreensível que muitos pais tenham dificuldade em distinguir estes dois espaços.

No entanto, apesar de estarem relacionadas, conjugalidade e coparentalidade não são a mesma coisa.

O que é a conjugalidade?

A conjugalidade refere-se à relação estabelecida entre duas pessoas enquanto casal.

Inclui dimensões como:

  • a intimidade;
  • os afetos;
  • a comunicação;
  • a sexualidade;
  • o companheirismo;
  • os projetos de vida;
  • as expectativas construídas em relação ao outro;
  • a satisfação com a relação.

A relação conjugal pertence, assim, ao espaço do casal. Pode existir antes da parentalidade, transformar-se com a chegada dos filhos e, em algumas situações, terminar.

O que é a coparentalidade?

A coparentalidade refere-se à relação que os adultos estabelecem entre si enquanto responsáveis pela educação, proteção e desenvolvimento de uma criança.

O seu foco não está na ligação amorosa, mas no exercício das funções parentais.

Abrange a forma como os adultos comunicam sobre a criança, coordenam decisões e reconhecem a responsabilidade parental partilhada.

Ideia-chave: Na conjugalidade, os adultos relacionam-se enquanto casal. Na coparentalidade, relacionam-se enquanto figuras responsáveis por uma criança.

Esta distinção ajuda-nos a compreender que o papel de companheiro ou companheira não é igual ao papel de pai, mãe ou figura parental.

Duas relações diferentes dentro da mesma família

A perspetiva sistémica compreende a família como um sistema constituído por diferentes subsistemas.

O subsistema conjugal corresponde à relação entre os adultos enquanto casal. O subsistema coparental diz respeito à forma como esses adultos exercem e coordenam as suas responsabilidades parentais.

Estes subsistemas influenciam-se mutuamente, mas mantêm funções diferentes.

Por exemplo, duas pessoas podem sentir-se emocionalmente afastadas enquanto casal e, ainda assim, conseguir comunicar sobre as necessidades do filho. Também pode acontecer o contrário: existir proximidade conjugal, mas dificuldade em estabelecer uma relação coparental organizada.

Por isso, a qualidade de uma relação não determina automaticamente a qualidade da outra.

Quando as dificuldades conjugais entram no espaço parental

A distinção torna-se mais difícil quando os sentimentos relacionados com a vida conjugal começam a orientar as interações parentais.

Uma mágoa entre o casal pode interferir na disponibilidade para escutar o outro enquanto progenitor. Uma discussão conjugal pode continuar através de decisões relacionadas com a criança. O filho pode, então, ser envolvido numa tensão cuja origem não está diretamente relacionada consigo.

Nestes momentos, torna-se importante perguntar:

“Estamos a falar enquanto casal ou enquanto figuras parentais?”

Esta pergunta simples pode ajudar os adultos a identificar a origem do problema antes de procurarem resolvê-lo.

Não significa ignorar as dificuldades conjugais. Significa reconhecer que essas dificuldades precisam de um espaço próprio, sem serem confundidas com as necessidades da criança.

E quando a relação conjugal termina?

Quando ocorre uma separação ou um divórcio, a relação conjugal pode terminar. No entanto, quando existem filhos, a relação coparental continua a precisar de ser exercida.

Os adultos deixam de ser um casal, mas permanecem ligados através das responsabilidades parentais.

Esta diferenciação pode ser emocionalmente exigente. A separação poderá envolver tristeza, desilusão, raiva ou sentimentos de injustiça. Ainda assim, as necessidades da criança permanecem e exigem decisões, comunicação e alguma forma de coordenação.

Distinguir conjugalidade de coparentalidade não elimina o sofrimento da separação. Contudo, permite começar a organizar dois processos diferentes: o fim da relação amorosa e a continuidade das funções parentais.

Uma reflexão prática

Quando surgir uma divergência, experimente fazer estas perguntas:

  • Este assunto está relacionado com a nossa relação enquanto casal?
  • Está diretamente relacionado com as necessidades da criança?
  • Existem sentimentos conjugais a interferir na nossa comunicação parental?
  • Conseguimos tratar este assunto no espaço adequado?

O objetivo não é afastar artificialmente duas relações que fazem parte da mesma família. É reconhecer a natureza do problema para responder de forma mais consciente.

Diferenciar para proteger cada relação

Compreender a diferença entre conjugalidade e coparentalidade ajuda os adultos a reconhecerem em que papel estão a comunicar.

Uma relação conjugal pode atravessar dificuldades sem que todas elas tenham de entrar no espaço parental. Da mesma forma, uma divergência sobre a educação dos filhos não significa necessariamente que exista um problema em toda a relação do casal.

Diferenciar permite olhar para cada relação com maior clareza e encaminhar cada dificuldade para o espaço adequado.

  • Se este artigo a ajudou a distinguir estas duas dimensões da vida familiar, partilhe-o com alguém que também possa beneficiar desta reflexão.
  • Se sente que as dificuldades conjugais estão a interferir no exercício das responsabilidades parentais, que este desafio está a afetar a sua rotina e deseja explorar estas questões num espaço seguro, confidencial e sem julgamentos, estou aqui para ajudar. 

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Este artigo tem uma finalidade informativa e não substitui uma avaliação ou um acompanhamento psicológico individualizado.

No próximo artigo, avançaremos para outra questão frequente:

É preciso os pais concordarem em tudo?

Referências científicas:

Feinberg, M. E. (2003). The internal structure and ecological context of coparenting: A framework for research and intervention. Parenting: Science and Practice, 3(2), 95–131. https://doi.org/10.1207/S15327922PAR0302_01