Quando a relação de casal e a relação parental se confundem.
A chegada de um filho transforma a organização da família. Duas pessoas que, até então, se relacionavam sobretudo enquanto casal passam também a assumir responsabilidades parentais.
A partir desse momento, passam a coexistir duas relações diferentes: a relação conjugal e a relação coparental.
Na vida quotidiana, estas duas dimensões cruzam-se frequentemente. Uma discussão iniciada na relação de casal pode interferir numa decisão sobre a criança. Da mesma forma, as divergências relacionadas com a educação podem aumentar a tensão entre o casal.
É, por isso, compreensível que muitos pais tenham dificuldade em distinguir estes dois espaços.
No entanto, apesar de estarem relacionadas, conjugalidade e coparentalidade não são a mesma coisa.
O que é a conjugalidade?
A conjugalidade refere-se à relação estabelecida entre duas pessoas enquanto casal.
Inclui dimensões como:
- a intimidade;
- os afetos;
- a comunicação;
- a sexualidade;
- o companheirismo;
- os projetos de vida;
- as expectativas construídas em relação ao outro;
- a satisfação com a relação.
A relação conjugal pertence, assim, ao espaço do casal. Pode existir antes da parentalidade, transformar-se com a chegada dos filhos e, em algumas situações, terminar.
O que é a coparentalidade?
A coparentalidade refere-se à relação que os adultos estabelecem entre si enquanto responsáveis pela educação, proteção e desenvolvimento de uma criança.
O seu foco não está na ligação amorosa, mas no exercício das funções parentais.
Abrange a forma como os adultos comunicam sobre a criança, coordenam decisões e reconhecem a responsabilidade parental partilhada.
Ideia-chave: Na conjugalidade, os adultos relacionam-se enquanto casal. Na coparentalidade, relacionam-se enquanto figuras responsáveis por uma criança.
Esta distinção ajuda-nos a compreender que o papel de companheiro ou companheira não é igual ao papel de pai, mãe ou figura parental.
Duas relações diferentes dentro da mesma família
A perspetiva sistémica compreende a família como um sistema constituído por diferentes subsistemas.
O subsistema conjugal corresponde à relação entre os adultos enquanto casal. O subsistema coparental diz respeito à forma como esses adultos exercem e coordenam as suas responsabilidades parentais.
Estes subsistemas influenciam-se mutuamente, mas mantêm funções diferentes.
Por exemplo, duas pessoas podem sentir-se emocionalmente afastadas enquanto casal e, ainda assim, conseguir comunicar sobre as necessidades do filho. Também pode acontecer o contrário: existir proximidade conjugal, mas dificuldade em estabelecer uma relação coparental organizada.
Por isso, a qualidade de uma relação não determina automaticamente a qualidade da outra.
Quando as dificuldades conjugais entram no espaço parental
A distinção torna-se mais difícil quando os sentimentos relacionados com a vida conjugal começam a orientar as interações parentais.
Uma mágoa entre o casal pode interferir na disponibilidade para escutar o outro enquanto progenitor. Uma discussão conjugal pode continuar através de decisões relacionadas com a criança. O filho pode, então, ser envolvido numa tensão cuja origem não está diretamente relacionada consigo.
Nestes momentos, torna-se importante perguntar:
“Estamos a falar enquanto casal ou enquanto figuras parentais?”
Esta pergunta simples pode ajudar os adultos a identificar a origem do problema antes de procurarem resolvê-lo.
Não significa ignorar as dificuldades conjugais. Significa reconhecer que essas dificuldades precisam de um espaço próprio, sem serem confundidas com as necessidades da criança.
E quando a relação conjugal termina?
Quando ocorre uma separação ou um divórcio, a relação conjugal pode terminar. No entanto, quando existem filhos, a relação coparental continua a precisar de ser exercida.
Os adultos deixam de ser um casal, mas permanecem ligados através das responsabilidades parentais.
Esta diferenciação pode ser emocionalmente exigente. A separação poderá envolver tristeza, desilusão, raiva ou sentimentos de injustiça. Ainda assim, as necessidades da criança permanecem e exigem decisões, comunicação e alguma forma de coordenação.
Distinguir conjugalidade de coparentalidade não elimina o sofrimento da separação. Contudo, permite começar a organizar dois processos diferentes: o fim da relação amorosa e a continuidade das funções parentais.
Uma reflexão prática
Quando surgir uma divergência, experimente fazer estas perguntas:
- Este assunto está relacionado com a nossa relação enquanto casal?
- Está diretamente relacionado com as necessidades da criança?
- Existem sentimentos conjugais a interferir na nossa comunicação parental?
- Conseguimos tratar este assunto no espaço adequado?
O objetivo não é afastar artificialmente duas relações que fazem parte da mesma família. É reconhecer a natureza do problema para responder de forma mais consciente.
Diferenciar para proteger cada relação
Compreender a diferença entre conjugalidade e coparentalidade ajuda os adultos a reconhecerem em que papel estão a comunicar.
Uma relação conjugal pode atravessar dificuldades sem que todas elas tenham de entrar no espaço parental. Da mesma forma, uma divergência sobre a educação dos filhos não significa necessariamente que exista um problema em toda a relação do casal.
Diferenciar permite olhar para cada relação com maior clareza e encaminhar cada dificuldade para o espaço adequado.
- Se este artigo a ajudou a distinguir estas duas dimensões da vida familiar, partilhe-o com alguém que também possa beneficiar desta reflexão.
- Se sente que as dificuldades conjugais estão a interferir no exercício das responsabilidades parentais, que este desafio está a afetar a sua rotina e deseja explorar estas questões num espaço seguro, confidencial e sem julgamentos, estou aqui para ajudar.
Precisa de apoio especializado?
Conheça: https://lacoseguro.com/sobre
Este artigo tem uma finalidade informativa e não substitui uma avaliação ou um acompanhamento psicológico individualizado.
No próximo artigo, avançaremos para outra questão frequente:
É preciso os pais concordarem em tudo?
Referências científicas:
Feinberg, M. E. (2003). The internal structure and ecological context of coparenting: A framework for research and intervention. Parenting: Science and Practice, 3(2), 95–131. https://doi.org/10.1207/S15327922PAR0302_01