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03 – É preciso os pais concordarem em tudo?

Quando duas formas de educar se encontram

“Eu acho que devemos ser mais firmes, mas o outro progenitor considera que estou a exagerar.”

“Quando tento estabelecer um limite, ele diz que a criança ainda é muito pequena.”

“Queremos ambos o melhor para o nosso filho, mas nem sempre concordamos sobre a forma de o educar.”

Estas dúvidas são frequentes entre as figuras parentais. Cada adulto chega à parentalidade com a sua história, os valores aprendidos na família de origem, as experiências vividas e uma determinada forma de compreender as necessidades da criança.

Por isso, mesmo quando existe amor, dedicação e um objetivo comum, podem surgir opiniões diferentes sobre regras, rotinas, autonomia, escola, alimentação ou utilização dos ecrãs.

Mas será que uma boa coparentalidade exige que os pais concordem em tudo?

A resposta é: não.

O desacordo faz parte da parentalidade

A investigação sobre coparentalidade identifica o acordo ou desacordo relativo à educação dos filhos como uma das dimensões da relação coparental.

Contudo, algum desacordo é esperado. As figuras parentais são pessoas diferentes e não perdem a sua individualidade quando assumem a responsabilidade de educar uma criança.

Podem interpretar o mesmo comportamento de formas distintas. Perante uma birra, por exemplo, um adulto poderá entender que a criança precisa de um limite mais claro, enquanto o outro considera que precisa primeiro de ser ajudada a acalmar.

Estas leituras diferentes não significam necessariamente que um está certo e o outro errado. Podem representar conhecimentos, sensibilidades e experiências distintas.

Ideia-chave: Uma boa coparentalidade não exige pensamentos iguais. Exige capacidade para reconhecer as diferenças e procurar uma resposta parental suficientemente coerente.

Concordar em tudo não é possível — nem necessário

A tentativa de alcançar um acordo absoluto pode criar uma expectativa irrealista.

Em qualquer relação existirão diferenças de opinião. O problema não está apenas no desacordo, mas sobretudo na forma como os adultos o vivem e procuram resolvê-lo.

Uma divergência pode transformar-se numa oportunidade para:

  • conhecer a perspetiva do outro;
  • rever ideias aprendidas na própria família;
  • refletir sobre as necessidades da criança;
  • procurar informação científica;
  • construir uma decisão partilhada.

Assim, o objetivo não é eliminar todas as diferenças, mas evitar que cada decisão parental se transforme numa competição para determinar quem tem razão.

Em que assuntos é importante procurar coerência?

Embora não seja necessário concordar em tudo, a criança beneficia de alguma previsibilidade nas áreas mais importantes da vida quotidiana.

As figuras parentais devem procurar entendimentos possíveis relativamente a questões como:

  • segurança física e emocional;
  • cuidados de saúde;
  • regras essenciais;
  • rotinas adequadas à idade;
  • respeito nas relações familiares;
  • decisões escolares relevantes;
  • resposta a comportamentos que possam colocar a criança ou outras pessoas em risco.

“Coerência” não significa que todas as situações sejam tratadas exatamente da mesma forma. Significa que a criança consegue reconhecer alguns princípios estáveis que orientam os adultos responsáveis por ela.

As crianças conseguem lidar com algumas diferenças

Uma criança pode compreender que os adultos têm personalidades e formas de agir diferentes.

Pode saber, por exemplo, que um progenitor gosta de organizar antecipadamente as atividades e que o outro é mais espontâneo. Também pode existir alguma flexibilidade nas rotinas, nas brincadeiras ou na forma de comunicar.

Estas diferenças não são necessariamente prejudiciais. Podem, inclusivamente, proporcionar experiências relacionais diversificadas.

O mais importante é que a criança não fique responsável por gerir as divergências dos adultos nem sinta que precisa de escolher qual deles está certo.

A criança precisa de continuar a reconhecer em ambos figuras capazes de cuidar, orientar e assumir as suas decisões.

Procurar compreender antes de responder

Quando surge um desacordo, é frequente cada adulto procurar defender imediatamente a sua posição. No entanto, antes de discutir a solução, pode ser útil compreender o significado que cada um atribui ao problema.

Em vez de perguntar:

“Quem tem razão?”

Pode ser mais útil perguntar:

“O que preocupa cada um de nós nesta situação?”

Por detrás de posições aparentemente opostas podem existir preocupações semelhantes.

Um progenitor poderá defender uma regra porque teme que a criança cresça sem limites. O outro poderá resistir à mesma regra porque receia tornar-se excessivamente rígido. Apesar das respostas diferentes, ambos podem estar preocupados com o bem-estar da criança.

Reconhecer essa preocupação comum pode facilitar a construção de uma decisão.

Uma reflexão prática

Perante uma divergência parental, experimentem refletir sobre estas questões:

  1. Qual é a necessidade da criança nesta situação?
  2. O que preocupa cada uma das figuras parentais?
  3. Esta decisão é essencial ou permite alguma flexibilidade?
  4. Existe um princípio comum que possa orientar a resposta?
  5. A decisão é adequada à idade e ao desenvolvimento da criança?

Estas perguntas ajudam a deslocar a atenção da disputa entre adultos para aquilo que a situação exige.

A coerência constrói-se através do diálogo

Os pais não precisam de concordar em tudo para exercerem uma coparentalidade saudável.

Precisam, contudo, de conseguir escutar as perspetivas existentes, identificar os assuntos essenciais e construir respostas suficientemente previsíveis para a criança.

Algumas diferenças permanecerão. Outras poderão ser negociadas. E algumas exigirão tempo, informação ou apoio profissional para serem compreendidas.

A qualidade da coparentalidade não se mede pela ausência de desacordos, mas pela capacidade de os adultos os reconhecerem e procurarem geri-los sem perder de vista as necessidades da criança.

  • Se este artigo lhe trouxe uma nova perspetiva, partilhe-o com outra pessoa que também exerça responsabilidades parentais e que precise de ler estas palavras.
  • Se as divergências educativas estão a causar tensão ou a dificultar a construção de respostas consistentes e deseja explorar estas questões num espaço seguro, confidencial e sem julgamentos, estou aqui para ajudar.

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Este artigo tem uma finalidade informativa e não substitui uma avaliação ou um acompanhamento psicológico individualizado.