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04 – Como a divisão das responsabilidades influencia a relação familiar?

Quando um dos adultos sente que está a cuidar de tudo

“Tenho de me lembrar das consultas, das reuniões da escola, das atividades e de tudo o que falta em casa.”

“Quando peço ajuda, parece que ainda tenho de explicar o que é necessário fazer.”

“Ambos cuidamos dos nossos filhos, mas sinto que a responsabilidade está quase toda do meu lado.”

Estas afirmações são frequentes em famílias que procuram encontrar um equilíbrio entre a vida profissional, as tarefas domésticas e as necessidades dos filhos.

Muitas vezes, o problema não está apenas na quantidade de tarefas realizadas. Está no cansaço de sentir que é sempre a mesma pessoa a antecipar, organizar e assegurar que tudo acontece.

A forma como as responsabilidades parentais são distribuídas pode influenciar a relação coparental e o funcionamento de toda a família.

O que são responsabilidades parentais?

As responsabilidades parentais incluem as tarefas necessárias para garantir o cuidado, a proteção, a educação e o desenvolvimento da criança.

Algumas são facilmente observáveis:

  • preparar refeições;
  • levar e buscar a criança;
  • acompanhar os trabalhos escolares;
  • tratar da higiene;
  • marcar e acompanhar consultas;
  • participar nas reuniões escolares;
  • organizar atividades e rotinas.

Contudo, existe também um trabalho menos visível: pensar antecipadamente no que a criança precisa, recordar prazos, planear horários, observar alterações emocionais e tomar decisões.

Esta dimensão é frequentemente designada por carga mental. Embora nem sempre seja reconhecida como uma tarefa, exige atenção constante e pode tornar-se emocionalmente desgastante.

Ideia-chave: Cuidar não é apenas executar tarefas. É também recordar, planear, antecipar e assumir a responsabilidade de garantir que as necessidades da criança são atendidas.

Dividir não significa fazer exatamente o mesmo

Uma distribuição equilibrada não exige que todas as tarefas sejam divididas a meio.

As famílias têm horários, recursos, competências e disponibilidades diferentes. Um adulto poderá acompanhar mais frequentemente as consultas, enquanto o outro assegura as rotinas escolares. Um poderá ter maior disponibilidade durante a semana e o outro assumir mais responsabilidades ao fim de semana.

O mais importante é que a organização seja conversada, reconhecida e considerada suficientemente justa pelas pessoas envolvidas.

A investigação sobre coparentalidade mostra que não devemos avaliar apenas a divisão objetiva das tarefas. A perceção de justiça e a satisfação com essa divisão também são importantes.

Duas famílias podem distribuir as responsabilidades de forma semelhante e vivê-las de maneiras muito diferentes. Numa poderá existir acordo e reconhecimento. Na outra, um dos adultos poderá sentir-se sobrecarregado ou pouco valorizado.

Quando “ajudar” não significa partilhar a responsabilidade

Na linguagem quotidiana, é frequente um progenitor dizer que “ajuda” o outro a cuidar dos filhos.

A palavra pode parecer inofensiva, mas também pode revelar que a responsabilidade principal é atribuída apenas a uma pessoa. O outro adulto participa quando lhe é pedido, mas não assume espontaneamente a tarefa de observar, planear e decidir.

Partilhar a responsabilidade significa mais do que executar uma indicação. Implica reconhecer que ambos têm um papel ativo na resposta às necessidades da criança.

Quando um adulto precisa de identificar permanentemente o que falta, pedir a colaboração do outro e supervisionar a sua execução, a tarefa pode estar dividida, mas a responsabilidade continua concentrada na mesma pessoa.

Como a sobrecarga afeta a relação familiar?

Quando a divisão das responsabilidades é vivida como injusta, podem surgir:

  • cansaço físico e emocional;
  • irritabilidade;
  • ressentimento;
  • sensação de solidão na parentalidade;
  • conflitos repetidos;
  • diminuição da disponibilidade emocional;
  • menor satisfação com a relação familiar.

A pessoa sobrecarregada poderá sentir que o seu esforço não é reconhecido. O outro adulto poderá, por sua vez, sentir que aquilo que faz nunca é suficiente ou que não existe espaço para participar de forma autónoma.

Forma-se, assim, um ciclo difícil: quanto mais um adulto controla ou assume todas as tarefas, menos o outro participa; quanto menos o outro participa, maior é a sensação de que não é possível confiar-lhe responsabilidades.

Este ciclo nem sempre resulta de falta de interesse. Pode estar relacionado com hábitos familiares, expectativas de género, horários profissionais, dificuldades de comunicação ou modelos aprendidos nas famílias de origem.

As responsabilidades mudam com o tempo

A organização familiar não deve ser considerada definitiva.

As necessidades de um bebé são diferentes das de uma criança em idade escolar ou de um adolescente. Também a disponibilidade dos adultos pode mudar devido ao trabalho, à saúde ou a outros acontecimentos familiares.

Uma distribuição que funcionou num determinado período poderá deixar de ser adequada.

Por isso, é importante que as famílias revejam regularmente a sua organização. Não devem esperar que um dos adultos chegue ao limite para reconhecer que algo precisa de mudar.

Uma reflexão prática

As figuras parentais podem começar por responder, individualmente, a estas perguntas:

  1. Que responsabilidades parentais assumo atualmente?
  2. Que tarefas realizo que poderão não ser visíveis para o outro?
  3. Que responsabilidades reconheço que o outro assume?
  4. A nossa organização é considerada justa por ambos?
  5. Existe alguma tarefa que precisa de ser redistribuída?

Depois, poderão comparar as respostas sem transformar a conversa numa contagem destinada a determinar quem faz mais.

O objetivo é tornar visível o trabalho de cada um, reconhecer o esforço existente e identificar possíveis necessidades de mudança.

Partilhar também é reconhecer

Uma divisão funcional das responsabilidades não se constrói apenas através de listas de tarefas. Exige comunicação, confiança e reconhecimento.

Cada família terá de encontrar a organização possível para a sua realidade. Mais do que procurar uma igualdade matemática, importa construir uma distribuição clara, negociada e suficientemente justa.

Quando os adultos reconhecem o esforço um do outro e assumem responsabilidades de forma participativa, deixam de funcionar como alguém que pede ajuda e alguém que ajuda. Passam a constituir uma equipa parental.

  • Se este artigo a ajudou a refletir sobre a organização da sua família, partilhe-o com outra pessoa que também exerça responsabilidades parentais.
  • Se a divisão das responsabilidades está a provocar sobrecarga, ressentimento ou conflitos familiares e estão a interferir no exercício das responsabilidades parentais, disponibilizo um espaço confidencial, seguro e sem julgamentos para compreender e ajudar a reorganizar estas dinâmicas.

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No próximo artigo, abordaremos outra situação que pode fragilizar esta equipa:

O que acontece quando um progenitor desautoriza o outro?

Este artigo tem uma finalidade informativa e não substitui uma avaliação ou um acompanhamento psicológico individualizado.