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05 – O que acontece quando um progenitor desautoriza o outro?

Quando uma orientação é anulada pelo outro progenitor

“A mãe não deixa, mas eu deixo.”

“Não ligues ao que o teu pai disse.”

“Se a tua mãe te colocou de castigo, quando estiveres comigo podes fazer o que quiseres.”

Estas frases podem surgir num momento de irritação, numa divergência educativa ou numa tentativa de tranquilizar a criança. Contudo, quando um progenitor invalida repetidamente a orientação do outro, a situação deixa de representar apenas uma diferença de opinião.

Estamos perante uma desautorização parental.

Os progenitores não precisam de pensar da mesma forma nem de tomar sempre decisões iguais. No entanto, quando um deles desvaloriza, ridiculariza ou anula o papel do outro diante da criança, a relação coparental pode ficar fragilizada.

O que significa desautorizar?

Desautorizar significa enfraquecer a legitimidade do outro enquanto figura parental.

Pode acontecer de forma direta:

  • contrariar imediatamente uma regra estabelecida pelo outro;
  • dizer à criança que não precisa de obedecer;
  • retirar uma consequência sem conversar previamente;
  • afirmar que o outro progenitor não sabe educar;
  • ridicularizar uma decisão parental.

Mas também pode acontecer de forma mais subtil:

  • revirar os olhos perante uma orientação;
  • fazer comentários irónicos;
  • concordar com a criança contra o outro progenitor;
  • permitir secretamente algo que tinha sido recusado;
  • apresentar-se como o progenitor compreensivo e colocar o outro no papel de excessivamente rígido.

Na literatura científica, estes comportamentos integram uma dimensão da coparentalidade designada por apoio versus enfraquecimento coparental.

Ideia-chave: Discordar de uma decisão não é o mesmo que desautorizar. A desautorização acontece quando a divergência é utilizada para diminuir ou anular o papel parental do outro.

O que acontece à relação coparental?

Quando a desautorização se repete, os adultos podem começar a relacionar-se como adversários, em vez de se reconhecerem como membros da mesma equipa parental.

O progenitor desautorizado poderá sentir:

  • falta de reconhecimento;
  • perda de confiança;
  • frustração;
  • ressentimento;
  • necessidade de se tornar mais rígido;
  • receio de que qualquer decisão seja anulada.

O outro progenitor poderá sentir que precisa de compensar aquilo que considera uma atitude excessiva ou inadequada. Contudo, ao intervir diante da criança, pode contribuir para um ciclo em que cada adulta procura corrigir o outro através das decisões parentais.

A questão inicial deixa, então, de estar centrada na necessidade da criança e transforma-se numa disputa sobre quem tem maior legitimidade para decidir.

O que acontece à criança?

Quando recebe orientações contraditórias, a criança pode sentir dificuldade em compreender qual é o limite e em quem pode confiar para a orientar.

Pode também perceber que existe uma divisão entre os adultos e adaptar-se a essa realidade. Por exemplo, poderá:

  • procurar o progenitor que costuma dar a resposta mais favorável;
  • repetir o pedido depois de receber uma recusa;
  • esconder de um adulto aquilo que o outro permitiu;
  • sentir-se responsável por manter segredos;
  • evitar falar sobre o que acontece com o outro progenitor;
  • sentir-se dividida entre duas figuras importantes.

Esta adaptação não deve ser interpretada automaticamente como manipulação. A criança está a tentar compreender e gerir um contexto em que as orientações parentais não são claras.

A inconsistência ocasional faz parte da vida familiar. O problema surge quando a desautorização se torna frequente e a criança passa a ocupar uma posição central nas divergências dos adultos.

Um exemplo do quotidiano

Uma criança pede para utilizar o telemóvel depois de já ter terminado o tempo combinado.

Um progenitor responde:

— Por hoje terminou. Amanhã podes voltar a utilizar.

A criança dirige-se ao outro adulto, que afirma:

— Podes usar mais um pouco. O teu pai exagera sempre nestas coisas.

Nesta situação, não ocorreu apenas uma alteração da regra. A decisão foi acompanhada por uma desvalorização do outro progenitor.

Uma resposta diferente poderia ser:

— Percebo que queiras continuar, mas o pai já te deu uma resposta. Depois conversaremos os dois sobre o tempo de utilização.

Mais tarde, os adultos poderão rever a decisão e concluir que a regra precisa de ser alterada. Fazer essa revisão não representa falta de autoridade. O importante é que a conversa aconteça entre os adultos, sem diminuir o papel parental de nenhum deles perante a criança.

E se considerar que a decisão do outro é inadequada?

Apoiar o papel parental do outro não significa aceitar silenciosamente todas as suas decisões.

Quando uma orientação parece desadequada, demasiado rígida ou pouco ajustada à criança, é legítimo questioná-la. Contudo, sempre que não exista um risco imediato, essa conversa deverá ocorrer em privado.

Pode começar por perguntas como:

  • O que pretendias alcançar com esta decisão?
  • O que te preocupou nesta situação?
  • Podemos encontrar uma resposta diferente?
  • Que mensagem queremos transmitir à criança?

Se existir risco para a segurança ou o bem-estar da criança, a prioridade é protegê-la. Nestas situações, não se trata de preservar uma aparência de concordância, mas de agir de forma responsável e procurar o apoio necessário.

Reparar depois de uma desautorização

Nem sempre os adultos conseguem gerir a divergência da melhor forma. Poderá acontecer que um progenitor contrarie o outro impulsivamente ou faça um comentário desadequado diante da criança.

Nesses momentos, é possível reparar.

O adulto pode reconhecer:

— Não foi adequado ter falado daquela forma. Eu e a tua mãe podemos ter opiniões diferentes, mas devemos conversar com respeito.

A reparação não apaga o que aconteceu, mas mostra à criança que os adultos conseguem assumir responsabilidade pelos seus comportamentos e procurar uma forma diferente de comunicar.

Discordar sem retirar legitimidade

Uma coparentalidade saudável não exige concordância permanente. Exige que as divergências não sejam usadas para enfraquecer o papel parental do outro.

Antes de contrariar uma decisão diante da criança, pode ser útil perguntar:

“Estou a proteger uma necessidade real da criança ou estou a reagir à minha dificuldade com o outro progenitor?”

Esta reflexão ajuda a separar a necessidade de intervir de uma reação emocional ao desacordo.

No próximo artigo, alargaremos esta reflexão a outra pergunta importante:

O conflito entre os pais afeta sempre os filhos?

  • Se este artigo a ajudou a reconhecer alguma dinâmica familiar, partilhe-o com outra pessoa que também exerça responsabilidades parentais.
  • Se a desautorização e as divergências parentais se tornaram frequentes, estou aqui para ajudar num espaço confidencial, seguro e sem julgamentos para explorar estas questões de forma a trabalhar estas relações.

Este artigo tem uma finalidade informativa e não substitui uma avaliação ou um acompanhamento psicológico individualizado.

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Referências científicas

Feinberg, M. E. (2003). The internal structure and ecological context of coparenting: A framework for research and intervention. Parenting: Science and Practice, 3(2), 95–131. https://doi.org/10.1207/S15327922PAR0302_01

McHale, J. P. (1997). Overt and covert coparenting processes in the family. Family Process, 36(2), 183–201. https://doi.org/10.1111/j.1545-5300.1997.00183.x

Margolin, G., Gordis, E. B., & John, R. S. (2001). Coparenting: A link between marital conflict and parenting in two-parent families. Journal of Family Psychology, 15(1), 3–21. https://doi.org/10.1037/0893-3200.15.1.3