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07 – É possível existir uma boa coparentalidade depois do divórcio?

Quando a relação termina, mas a parentalidade continua

“Se deixámos de conseguir viver juntos, como poderemos continuar a educar o nosso filho?”

“Cada conversa termina numa discussão.”

“Tenho dificuldade em separar aquilo que aconteceu entre nós das decisões que precisamos de tomar como pais.”

O divórcio representa o fim da relação conjugal, mas não o fim das responsabilidades parentais.

Esta transição pode ser particularmente exigente. Os adultos podem estar a lidar com tristeza, zanga, desilusão, sentimento de injustiça ou preocupação com o futuro. Ao mesmo tempo, continuam a precisar de responder às necessidades dos filhos e de tomar decisões relacionadas com a sua vida.

Perante esta realidade, muitas famílias perguntam: será possível construir uma boa coparentalidade depois do divórcio?

Sim, é possível. Contudo, essa relação poderá precisar de ser reorganizada e construída de uma forma diferente.

A família não desaparece: transforma-se

O divórcio modifica a estrutura e o funcionamento da família.

Os adultos deixam de partilhar uma relação conjugal, mas continuam ligados através das responsabilidades relacionadas com os filhos. A criança poderá passar a viver entre duas casas, enfrentar alterações nas rotinas e adaptar-se a novas formas de convivência familiar.

A coparentalidade depois do divórcio refere-se à forma como os progenitores continuam a exercer, coordenar e comunicar sobre essas responsabilidades.

Ideia-chave: O casamento ou a relação conjugal pode terminar. A função parental permanece e precisa de encontrar uma nova forma de organização.

Uma boa coparentalidade pós-divórcio não significa reconstruir a relação amorosa. Significa criar condições para que os adultos consigam continuar a exercer os seus papéis parentais.

É necessário manter uma relação próxima?

Os progenitores não precisam de ser amigos, conviver regularmente ou partilhar aspetos da sua vida pessoal para exercerem uma coparentalidade funcional.

A relação necessária dependerá das características e das necessidades de cada família.

Alguns pais conseguem manter uma comunicação próxima e flexível. Outros precisam de uma relação mais estruturada, com contactos limitados às questões diretamente relacionadas com os filhos.

O mais importante não é a proximidade emocional entre os adultos, mas a capacidade de preservar uma comunicação parental suficientemente segura e funcional.

Uma boa coparentalidade pode, assim, assumir formas diferentes. Não existe um único modelo adequado a todas as famílias.

O desafio de separar a dor conjugal da função parental

Depois do divórcio, é frequente que os sentimentos da relação conjugal interfiram na comunicação parental.

Uma mensagem sobre o horário da criança pode ser interpretada como uma tentativa de controlo. Um atraso pode reativar sentimentos antigos de desconsideração. Uma decisão escolar pode transformar-se numa nova oportunidade para discutir problemas que começaram durante a relação.

Nestas situações, o conteúdo da conversa deixa de estar centrado na criança e passa a transportar a história emocional dos adultos.

Distinguir os dois espaços não significa ignorar a dor associada à separação. Significa reconhecer que essa dor precisa de ser trabalhada num contexto próprio, sem ser resolvida através das decisões parentais.

Antes de responder, poderá ser útil perguntar:

“Estou a reagir a uma necessidade atual do meu filho ou a uma ferida da relação que terminou?”

O que facilita a coparentalidade depois do divórcio?

A reorganização coparental tende a ser facilitada quando existem:

  • canais de comunicação definidos;
  • informação clara e objetiva;
  • alguma previsibilidade nas rotinas;
  • decisões orientadas pelas necessidades da criança;
  • respeito pelos limites pessoais de cada adulto;
  • distinção entre assuntos parentais e conjugais;
  • disponibilidade para rever acordos quando as necessidades mudam.

A comunicação não precisa de ser longa ou emocionalmente próxima. Em determinadas famílias, uma comunicação breve, respeitosa e centrada em factos poderá ser mais funcional.

Por exemplo:

– A consulta ficou marcada para terça-feira, às 16 horas. Envio depois a informação transmitida pelo médico.

Esta mensagem comunica o necessário sem recuperar conflitos antigos nem fazer acusações.

Quando a comunicação direta é muito difícil

Nem todas as separações permitem imediatamente uma coparentalidade cooperante.

Quando existe hostilidade intensa, todas as conversas podem transformar-se num novo confronto. Nesses casos, poderá ser necessário estabelecer uma organização mais estruturada, com:

  • comunicação escrita;
  • assuntos claramente delimitados;
  • horários e rotinas definidos;
  • menor frequência de contacto;
  • recurso a mediação ou acompanhamento especializado.

Em contextos de conflito elevado, poderá ser mais realista procurar inicialmente uma parentalidade paralela. Neste modelo, cada progenitor exerce as suas responsabilidades durante o período em que está com a criança, mantendo apenas a comunicação indispensável.

O objetivo não é afastar definitivamente os adultos da cooperação. É reduzir oportunidades de confronto enquanto se criam condições de maior estabilidade.

Quando existem violência, intimidação, controlo ou medo, a prioridade não deve ser aproximar os progenitores, mas garantir segurança e recorrer ao apoio especializado e jurídico adequado.

Um exercício de reorganização

Cada progenitor pode começar por identificar três áreas:

O que pertence à relação que terminou?

Mágoas, deceções, acusações e assuntos íntimos do antigo casal.

O que pertence à relação parental?

Saúde, escola, rotinas, desenvolvimento, segurança e necessidades emocionais dos filhos.

O que precisa de ser definido?

Forma de comunicação, informações a partilhar, decisões que exigem articulação e situações que precisam de maior previsibilidade.

Esta separação não elimina imediatamente o conflito, mas ajuda a organizar a comunicação e a reduzir a mistura entre assuntos conjugais e parentais.

Uma boa coparentalidade não exige uma relação perfeita

Depois do divórcio, construir uma relação coparental funcional pode demorar tempo. Os adultos estão também a adaptar-se à perda da relação, às mudanças na vida diária e a uma nova identidade familiar.

É possível existirem momentos de maior cooperação e outros de maior dificuldade.

O objetivo não é manter uma imagem de harmonia permanente. É desenvolver uma forma de comunicação e organização que permita aos progenitores continuar a responder às necessidades dos filhos.

Mesmo quando o casamento termina, os adultos podem construir uma nova relação: não enquanto casal, mas enquanto pessoas que partilham uma responsabilidade parental.

No próximo artigo, ampliaremos o conceito de coparentalidade através de outra pergunta:

Quem pode exercer uma função coparental?

  •  Se este artigo o/a ajudou a compreender este conflito partilhe-o com alguém que também possa beneficiar desta reflexão e ajudar outra família a atravessar a reorganização depois do divórcio,
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Este artigo tem uma finalidade informativa e não substitui uma avaliação ou um acompanhamento psicológico individualizado. Em situações de violência, intimidação ou risco, deverá ser procurado apoio especializado e proteção adequada.

Referências científicas

Feinberg, M. E. (2003). The internal structure and ecological context of coparenting: A framework for research and intervention. Parenting: Science and Practice, 3(2), 95–131. https://doi.org/10.1207/S15327922PAR0302_01

Lamela, D., Figueiredo, B., Bastos, A., & Feinberg, M. (2016). Typologies of post-divorce coparenting and parental well-being, parenting quality and children’s psychological adjustment. Child Psychiatry & Human Development, 47, 716–728. https://doi.org/10.1007/s10578-015-0604-5

Maccoby, E. E., Depner, C. E., & Mnookin, R. H. (1990). Coparenting in the second year after divorce. Journal of Marriage and the Family, 52(1), 141–155. https://doi.org/10.2307/352846 Van Dijk, R., van der Valk, I. E., Deković, M., & Branje, S. (2020). A meta-analysis on interparental conflict, parenting, and child adjustment in divorced families: Examining mediation using meta-analytic structural equation models. Clinical Psychology Review, 79, 101861. https://doi.org/10.1016/j.cpr.2020.101861