Quando duas formas de educar se encontram
“Eu acho que devemos ser mais firmes, mas o outro progenitor considera que estou a exagerar.”
“Quando tento estabelecer um limite, ele diz que a criança ainda é muito pequena.”
“Queremos ambos o melhor para o nosso filho, mas nem sempre concordamos sobre a forma de o educar.”
Estas dúvidas são frequentes entre as figuras parentais. Cada adulto chega à parentalidade com a sua história, os valores aprendidos na família de origem, as experiências vividas e uma determinada forma de compreender as necessidades da criança.
Por isso, mesmo quando existe amor, dedicação e um objetivo comum, podem surgir opiniões diferentes sobre regras, rotinas, autonomia, escola, alimentação ou utilização dos ecrãs.
Mas será que uma boa coparentalidade exige que os pais concordem em tudo?
A resposta é: não.
O desacordo faz parte da parentalidade
A investigação sobre coparentalidade identifica o acordo ou desacordo relativo à educação dos filhos como uma das dimensões da relação coparental.
Contudo, algum desacordo é esperado. As figuras parentais são pessoas diferentes e não perdem a sua individualidade quando assumem a responsabilidade de educar uma criança.
Podem interpretar o mesmo comportamento de formas distintas. Perante uma birra, por exemplo, um adulto poderá entender que a criança precisa de um limite mais claro, enquanto o outro considera que precisa primeiro de ser ajudada a acalmar.
Estas leituras diferentes não significam necessariamente que um está certo e o outro errado. Podem representar conhecimentos, sensibilidades e experiências distintas.
Ideia-chave: Uma boa coparentalidade não exige pensamentos iguais. Exige capacidade para reconhecer as diferenças e procurar uma resposta parental suficientemente coerente.
Concordar em tudo não é possível — nem necessário
A tentativa de alcançar um acordo absoluto pode criar uma expectativa irrealista.
Em qualquer relação existirão diferenças de opinião. O problema não está apenas no desacordo, mas sobretudo na forma como os adultos o vivem e procuram resolvê-lo.
Uma divergência pode transformar-se numa oportunidade para:
- conhecer a perspetiva do outro;
- rever ideias aprendidas na própria família;
- refletir sobre as necessidades da criança;
- procurar informação científica;
- construir uma decisão partilhada.
Assim, o objetivo não é eliminar todas as diferenças, mas evitar que cada decisão parental se transforme numa competição para determinar quem tem razão.
Em que assuntos é importante procurar coerência?
Embora não seja necessário concordar em tudo, a criança beneficia de alguma previsibilidade nas áreas mais importantes da vida quotidiana.
As figuras parentais devem procurar entendimentos possíveis relativamente a questões como:
- segurança física e emocional;
- cuidados de saúde;
- regras essenciais;
- rotinas adequadas à idade;
- respeito nas relações familiares;
- decisões escolares relevantes;
- resposta a comportamentos que possam colocar a criança ou outras pessoas em risco.
“Coerência” não significa que todas as situações sejam tratadas exatamente da mesma forma. Significa que a criança consegue reconhecer alguns princípios estáveis que orientam os adultos responsáveis por ela.
As crianças conseguem lidar com algumas diferenças
Uma criança pode compreender que os adultos têm personalidades e formas de agir diferentes.
Pode saber, por exemplo, que um progenitor gosta de organizar antecipadamente as atividades e que o outro é mais espontâneo. Também pode existir alguma flexibilidade nas rotinas, nas brincadeiras ou na forma de comunicar.
Estas diferenças não são necessariamente prejudiciais. Podem, inclusivamente, proporcionar experiências relacionais diversificadas.
O mais importante é que a criança não fique responsável por gerir as divergências dos adultos nem sinta que precisa de escolher qual deles está certo.
A criança precisa de continuar a reconhecer em ambos figuras capazes de cuidar, orientar e assumir as suas decisões.
Procurar compreender antes de responder
Quando surge um desacordo, é frequente cada adulto procurar defender imediatamente a sua posição. No entanto, antes de discutir a solução, pode ser útil compreender o significado que cada um atribui ao problema.
Em vez de perguntar:
“Quem tem razão?”
Pode ser mais útil perguntar:
“O que preocupa cada um de nós nesta situação?”
Por detrás de posições aparentemente opostas podem existir preocupações semelhantes.
Um progenitor poderá defender uma regra porque teme que a criança cresça sem limites. O outro poderá resistir à mesma regra porque receia tornar-se excessivamente rígido. Apesar das respostas diferentes, ambos podem estar preocupados com o bem-estar da criança.
Reconhecer essa preocupação comum pode facilitar a construção de uma decisão.
Uma reflexão prática
Perante uma divergência parental, experimentem refletir sobre estas questões:
- Qual é a necessidade da criança nesta situação?
- O que preocupa cada uma das figuras parentais?
- Esta decisão é essencial ou permite alguma flexibilidade?
- Existe um princípio comum que possa orientar a resposta?
- A decisão é adequada à idade e ao desenvolvimento da criança?
Estas perguntas ajudam a deslocar a atenção da disputa entre adultos para aquilo que a situação exige.
A coerência constrói-se através do diálogo
Os pais não precisam de concordar em tudo para exercerem uma coparentalidade saudável.
Precisam, contudo, de conseguir escutar as perspetivas existentes, identificar os assuntos essenciais e construir respostas suficientemente previsíveis para a criança.
Algumas diferenças permanecerão. Outras poderão ser negociadas. E algumas exigirão tempo, informação ou apoio profissional para serem compreendidas.
A qualidade da coparentalidade não se mede pela ausência de desacordos, mas pela capacidade de os adultos os reconhecerem e procurarem geri-los sem perder de vista as necessidades da criança.
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- Se as divergências educativas estão a causar tensão ou a dificultar a construção de respostas consistentes e deseja explorar estas questões num espaço seguro, confidencial e sem julgamentos, estou aqui para ajudar.
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Este artigo tem uma finalidade informativa e não substitui uma avaliação ou um acompanhamento psicológico individualizado.