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06 – O conflito entre os pais afeta sempre os filhos?

Quando os pais discutem e ficam preocupados com os filhos

“Discutimos diante do nosso filho. Será que o prejudicámos?”

“Ele percebe quando não estamos de acordo, mesmo que tentemos esconder.”

“Devemos evitar qualquer discussão à frente das crianças?”

Estas preocupações são compreensíveis. Muitos pais receiam que qualquer desacordo possa afetar emocionalmente os filhos.

Contudo, os conflitos fazem parte das relações humanas. Mesmo em famílias afetuosas e cuidadoras, existem diferenças de opinião, momentos de irritação e dificuldades de comunicação.

Por isso, a questão não é apenas saber se os pais discutem. É necessário compreender como discutem, com que frequência, com que intensidade e de que forma resolvem o conflito.

Nem todos os conflitos têm o mesmo impacto.

O que entendemos por conflito parental?

O conflito parental ocorre quando existem posições, interesses, necessidades ou expectativas diferentes entre as figuras parentais.

Pode estar relacionado com a educação dos filhos, mas também com dinheiro, trabalho, tarefas domésticas, relações familiares ou dificuldades conjugais.

O conflito pode manifestar-se através de:

  • uma conversa em que existem opiniões diferentes;
  • irritação e críticas;
  • silêncio hostil;
  • afastamento emocional;
  • discussões intensas;
  • insultos ou ameaças;
  • agressividade;
  • tentativas de envolver a criança.

Algumas destas formas são mais perturbadoras do que outras. Assim, não basta saber se existe conflito: é importante observar as suas características.

Ideia-chave: O desacordo é inevitável. O que mais influencia a criança é a forma como os adultos expressam, conduzem e resolvem esse desacordo.

Nem todos os conflitos são destrutivos

Um conflito pode ser conduzido de forma construtiva quando os adultos:

  • expressam opiniões sem humilhar;
  • escutam a perspetiva do outro;
  • mantêm o respeito;
  • procuram uma solução;
  • conseguem acalmar-se;
  • reconhecem os próprios erros;
  • chegam a um entendimento ou aceitam uma diferença.

Quando a criança observa os adultos a discordarem e, posteriormente, a procurarem uma solução, pode aprender que os conflitos não significam necessariamente perda de amor, abandono ou rutura.

Pode também compreender que é possível expressar insatisfação, ouvir outra perspetiva e reparar uma relação.

Isso não significa que os pais devam discutir propositadamente diante dos filhos. Significa que uma divergência respeitosa e resolvida não tem o mesmo significado que um confronto intenso, hostil e repetido.

Quando o conflito se torna mais preocupante?

A investigação tem identificado algumas características que aumentam o potencial impacto do conflito parental.

Intensidade

Gritos, insultos, ameaças, agressividade ou destruição de objetos podem gerar medo e insegurança.

Frequência

Quando as discussões são constantes, a criança pode permanecer num estado de vigilância, antecipando o próximo confronto.

Ausência de resolução

Se os conflitos terminam a situação ficou resolvida.

Conteúdo relacionado com a criança

O impacto pode ser maior quando a criança ouve que é a causa da discussão ou quando os adultos discutem sobre a sua educação, comportamento ou lealdade.

Envolvimento da criança

Pedir-lhe que tome partido, transmita mensagens, guarde segredos ou confirme a versão de um adulto coloca-a numa posição que não corresponde ao seu papel.

Imprevisibilidade

Quando a criança não consegue antecipar o que desencadeia as discussões ou qual será a reação dos adultos, o ambiente familiar pode tornar-se emocionalmente inseguro.

Como pode a criança interpretar o conflito?

As crianças não observam apenas aquilo que acontece. Procuram também atribuir-lhe um significado.

Perante uma discussão, podem perguntar silenciosamente:

  • A culpa é minha?
  • Os meus pais vão separar-se?
  • Alguém vai ficar magoado?
  • Tenho de fazer alguma coisa para os acalmar?
  • De que lado devo ficar?
  • Ainda estamos seguros?

A idade, o desenvolvimento, o temperamento e as experiências anteriores influenciam a forma como cada criança interpreta o conflito.

Algumas procuram intervir e acalmar os adultos. Outras afastam-se, ficam em silêncio ou tentam distrair-se. Também podem surgir irritabilidade, dificuldades de concentração, alterações no sono ou queixas físicas.

Estas respostas não permitem, isoladamente, concluir que existe um problema psicológico. Podem representar formas de adaptação a um ambiente que a criança está a tentar compreender.

O silêncio também pode ser vivido como conflito

Nem sempre o conflito é expresso através de gritos.

A hostilidade silenciosa, o afastamento prolongado, a indiferença e a tensão constante também podem ser percebidos pelas crianças. Mesmo sem compreenderem a origem do problema, observam alterações no tom de voz, nas expressões faciais e na disponibilidade emocional dos adultos.

Tentar esconder completamente uma dificuldade nem sempre impede que a criança a perceba.

Quando isso acontece, uma explicação simples e adequada à idade pode ajudá-la a compreender:

— Estamos aborrecidos um com o outro, mas esta é uma questão entre adultos. Não foi causada por ti e estamos a tratar do assunto.

Esta mensagem não revela detalhes que não pertencem à criança, mas retira-lhe a responsabilidade pelo conflito.

A importância da resolução e da reparação

A criança pode assistir ao início de uma discussão e não estar presente quando os adultos a resolvem. Nesse caso, poderá permanecer com a ideia de que a tensão continua.

Por isso, quando um conflito aconteceu diante dela, pode ser importante tornar a reparação visível.

Os adultos podem explicar:

— Tivemos uma discussão e falámos de uma forma que não foi adequada. Já estamos mais tranquilos e vamos continuar a resolver este assunto.

Se gritaram ou disseram algo desrespeitoso, podem reconhecer esse comportamento sem responsabilizar o outro:

— Eu estava irritado, mas não deveria ter gritado. Vou procurar agir de outra forma.

Reparar não significa fingir que já não existem diferenças. Significa mostrar que os adultos assumem responsabilidade pela forma como comunicam.

Uma reflexão para os pais

Quando existir um conflito, procure refletir:

  1. Como estamos a falar um com o outro?
  2. A criança está a ser envolvida direta ou indiretamente?
  3. Poderá pensar que é responsável pelo que está a acontecer?
  4. Conseguimos mostrar-lhe que a situação está a ser tratada pelos adultos?
  5. Depois do conflito, existiu alguma forma de reparação?

Estas perguntas não pretendem exigir uma parentalidade sem falhas. Pretendem ajudar os adultos a observar a experiência da criança dentro do conflito familiar.

O conflito não determina, por si só, o futuro da criança

Nem todas as discussões parentais provocam consequências negativas. O impacto depende da combinação de diferentes fatores, incluindo a intensidade, a frequência, a duração, a resolução e o significado atribuído pela criança.

Um desacordo pontual, respeitoso e reparado é diferente de um ambiente marcado por hostilidade, medo e imprevisibilidade.

O objetivo não é criar uma família onde ninguém discute. É construir uma família onde os adultos conseguem assumir a responsabilidade pelos seus conflitos e evitar que a criança tenha de os resolver.

No próximo artigo, iremos refletir sobre esta relação depois do fim da conjugalidade:

É possível existir uma boa coparentalidade depois do divórcio?

  • Se este artigo a ajudou a compreender o conflito parental de outra forma, partilhe-o com alguém que também possa beneficiar desta reflexão.
  •  Se os conflitos se tornaram frequentes ou estão a afetar o ambiente familiar, estou aqui para ajudar num espaço confidencial, seguro e sem julgamentos para explorar estas questões de forma a trabalhar estas relações.

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Referências científicas

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Grych, J. H., & Fincham, F. D. (1990). Marital conflict and children’s adjustment: A cognitive-contextual framework. Psychological Bulletin, 108(2), 267–290. https://doi.org/10.1037/0033-2909.108.2.267

McCoy, K., Cummings, E. M., & Davies, P. T. (2009). Constructive and destructive marital conflict, emotional security and children’s prosocial behavior. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 50(3), 270–279. https://doi.org/10.1111/j.1469-7610.2008.01945.x

Este artigo tem uma finalidade informativa e não substitui uma avaliação ou um acompanhamento psicológico individualizado.